Alagoana conquista 2ª lugar no prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional

Escrito de maneira “acidental”, fruto da indisciplina para escrever romances e inspirado na ideia de “geleias poéticas” (pequenos potes de geleia que conteriam versos), nasceu o primeiro e, agora, premiado livro de Natasha Tinet “Veludo Violento”, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, editora oficial do Estado de Alagoas, por meio de edital público.

O livro de poesia selecionado pelo edital de obras literárias da Imprensa Oficial Graciliano Ramos foi lançado, em 2018, e conquistou o 2º lugar na categoria poesia do prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional, cujo objetivo é reconhecer a qualidade intelectual das obras publicadas no período de 1º de maio de 2018 a 30 de abril de 2019.

O prêmio de renome nacional consagra a estreia de Natasha na poesia brasileira e foi recebido com celebração pela autora “Eu disputei com nomes muito grandes da literatura, da poesia, que já são bem estabelecidos. Ficar atrás só do Paulo Henriques Brito, que um é dos maiores poetas do país, e ver que o primeiro livro conseguiu ter essa classificação, me deixa muito feliz! Também fique feliz pelo terceiro lugar ser Francisco Malman também, que é um amigo meu de Curitiba. Então, teve mais significado, mais importância pra mim”, refletiu.

A escritora alagoana, natural de Palmeira dos Índios, iniciou seus trabalhos de escrita no universo da internet, entre 2008 e 2013. Teve dois blogs – Sai de mim bomba&brigitbardot – nos quais compartilhava crônicas e relatos da vida cotidiana. Nessa época, ainda não escrevia poesia, nem tinha pretensão de ser poetisa, apesar de se dedicar à leitura de poesia.

O segmento literário chegou na época em que buscava conciliar seus trabalhos com a forma de viver das palavras. Nesse mesmo período, uma outra obsessão povoava a cabeça de Natasha: fazer geleias. E foi a junção da ideia de fazer geleias e poder escrever que fez nascer os primeiros versos de Veludo Violento, como conta: “A psicóloga deu a ideia de fazer a geleia com pequenos textos, pois ‘é uma forma de você trabalhar isso também como literatura’. Daí, eu comecei a fazer versos pra isso. Só que eles, às vezes, não eram muito positivos. Acabou que ficaram mais versos sobre solidão e essa coisa da insônia. Então, eu guardei o caderno com esses versos, depois comecei a trabalhar, e fiz 12 poemas”, relembra Natasha.

As geleias literárias não foram para frente e tornaram-se apenas presentes de Natal para a família, mas os versos, sim. O protótipo de Veludo Violento foi apresentado aos amigos do grupo literário Membrana, que perceberam o humor e a ironia da poesia de Natasha e estimularam a submissão dos poemas ao Edital de Obras Literárias da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. O livro foi selecionado. Foi a poesia que abriu oficialmente as portas do mundo literário para a escritora.

A boa recepção do livro deu segurança para que Natasha se afirmasse como poetisa. ”Eu sou poetisa! É isso mesmo! Porque é difícil aceitar que você é escritora. Pra mim, foi difícil aceitar, sabe? Mas, agora, com mais de 30 anos, e com o primeiro livro publicado, eu falo e reafirmo: eu sou poetisa, sou escritora”, destaca Tinet. E essa segurança é perceptível nos versos transparentes de Veludo Violento, nos quais é possível ter contanto não apenas com a poesia, mas com a personalidade de Natasha, que assina também a ilustração do livro.

Afiada, aguda e irônica, a coletânea dos poemas traz, na maioria das vezes, o lugar de fala feminino e a aborda dores e traços da mulher contemporânea, como explica a própria autora: “É um tema que é importante pra mim e não consegui deixar de fora. Tem a paródia do poema do Paulo Leminski, ‘um homem com uma dor’. Eu fiz ‘uma mulher com uma dor’, porque ser uma mulher com uma dor nem sempre é elegante. Só aos homens, me parece, é permitido sentir uma dor elegante e a mulher convive com a dor desde que nasce”, pontuou.

No livro, outra crítica contundente, mas vestida de humor, está na série de poemas babilônicas em que uma menina trava uma luta contra a sua Barbie falante. De acordo com a escritora, os poemas foram inspirados após a leitura de uma pesquisa britânica que mostrava meninas que no fim da infância torturavam suas bonecas, a maioria do modelo Barbie, e não levavam para adolescência nenhuma sensação de nostalgia pelo brinquedo. Somado a isso, veio a memória de uma prima que também maltratava suas bonecas.

Segundo Natasha Tinet, a sequência de poemas traz uma reflexão: “Falar do significado da boneca Barbie, de onde ela vem, qual o padrão de beleza que ela impõe. Quem que está falando pela Barbie, quando ela amaldiçoa a criança? Então, também é uma crítica”, esclarece.

Veludo Violento está encharcado da dualidade da poetisa, que transita entre a morbidez e a reflexão, pautada pelo senso de humor. “O veludo é algo macio. É um tecido que, ao toque, é muito macio. É um tecido que eu gosto muito, adoro veludo. E é violento no sentido de ser pele também. No poema ‘Guardo em mim pêssegos mortos/ veludo violento que pulsa’, eu estou falando de pele, numa questão de ser essa pessoa que carrega essa dualidade”, explica.

Ascom – 14/11/2019